Por Lucas Luft
Estudante de Economia – UEPG
Este ensaio discute de que maneira a adoção de instituições pluralistas pode minar, ao longo do tempo, a hegemonia internacional do dólar. Por meio de exemplos como Suécia, China, Venezuela e Argentina, argumenta-se que a confiança nas moedas está mais relacionada à qualidade das instituições do que à força econômica isolada dos países. O caso da China, que adota um modelo híbrido de pluralismo econômico com autoritarismo político, é analisado como evidência de um movimento estratégico de diversificação monetária.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o dólar norte-americano consolidou-se como a principal moeda de reserva e de liquidação internacional. Essa hegemonia, no entanto, não é meramente fruto da força econômica ou militar dos Estados Unidos, mas da robustez de suas instituições: segurança jurídica, independência do Banco Central, mercados financeiros profundos e estabilidade política. Contudo, à medida que outras nações reformam suas instituições — adotando modelos mais pluralistas e previsíveis —, a dominância do dólar pode perder força. Um exemplo notável é a China, que, embora mantenha um sistema político centralizado, tem adotado práticas institucionais econômicas mais pluralistas, abrindo sua economia ao comércio, à competição regulada e à inovação tecnológica. Este ensaio discute como a transformação institucional pode alterar a hierarquia monetária global.
Instituições pluralistas e confiança monetária
Segundo Acemoglu e Robinson (2012), instituições pluralistas são aquelas que garantem liberdade econômica e política, limitam o poder estatal, protegem os direitos de propriedade e promovem a concorrência sob regras claras e estáveis. A Suécia exemplifica bem esse modelo. Com alto índice de liberdade econômica e uma política fiscal transparente, o país combina democracia, segurança jurídica e autonomia monetária, fazendo da coroa sueca uma moeda confiável, mesmo fora da zona do euro.
Fundamentos da hegemonia do dólar
O dólar domina o sistema monetário global porque está ancorado em instituições sólidas: um banco central independente, um sistema jurídico estável e um mercado financeiro líquido e profundo. Durante a crise de 2008, por exemplo, investidores globais buscaram refúgio no dólar e nos títulos do Tesouro norte-americano, reforçando que a confiança na moeda vem mais de sua institucionalidade do que de seu poder militar ou tamanho econômico.
Porém, essa hegemonia tem limites. O uso do dólar como arma geopolítica — como no caso das sanções econômicas contra o Irã e a Rússia — gerou desconfiança em países que buscam alternativas menos vulneráveis a pressões unilaterais. Ao mesmo tempo, o endividamento crescente dos Estados Unidos e sua polarização política colocam em risco a estabilidade que o dólar historicamente representou.
O caso chinês: pluralismo econômico seletivo
A China iniciou sua abertura econômica no final dos anos 1970, criando zonas econômicas especiais e promovendo gradualmente o investimento estrangeiro e a integração ao comércio internacional. Apesar de manter um regime político autoritário, a China implementou reformas econômicas que imitavam práticas pluralistas no setor produtivo. Esse modelo híbrido favoreceu o crescimento acelerado do país e permitiu a expansão do uso do renminbi (RMB) no comércio exterior.
Atualmente, a China lidera acordos bilaterais de liquidação direta com diversos países, incluindo o Brasil, que passou a realizar parte de suas transações com os chineses usando diretamente o real e o yuan, sem intermediação do dólar. Além disso, contratos de exportação de petróleo com o Irã e, mais recentemente, com a Arábia Saudita, estão sendo denominados em yuan. A criação do sistema de pagamentos CIPS, alternativa chinesa ao SWIFT, também reforça o projeto de internacionalização da moeda chinesa.
Consequências da persistência em instituições extrativistas
Em contraste, países que mantêm instituições extrativistas tendem a apresentar moedas fracas, instabilidade financeira e exclusão dos fluxos globais. A Venezuela, por exemplo, viveu uma hiperinflação recorde após anos de controle autoritário da economia, manipulação monetária e ausência de transparência fiscal. O bolívar perdeu totalmente sua função como moeda e foi substituído informalmente pelo dólar em várias regiões do país.
Na Argentina, o cenário é semelhante: sucessivos governos mantiveram políticas intervencionistas, como congelamentos de preços, controles cambiais e intervenções no Banco Central, resultando em ciclos recorrentes de inflação, desvalorização e fuga de capitais. Outro exemplo é o Zimbábue, que, após anos de hiperinflação, teve de abandonar sua moeda e passou a utilizar moedas estrangeiras — sem poder de emissão próprio.
Esses casos demonstram que, ao manterem estruturas extrativistas, esses países permanecem à margem do sistema financeiro global e incapazes de projetar sua moeda como alternativa real ao dólar.
Multipolaridade e disputa institucional
A confiança nas moedas está cada vez mais ligada à qualidade das instituições. O franco suíço é forte porque a Suíça preserva há décadas uma governança fiscal sólida, estabilidade política e uma política monetária previsível. Já o euro, apesar de instituições monetárias consolidadas, ainda sofre com desafios políticos internos na União Europeia.
A China, com seu modelo de pluralismo econômico seletivo, está conseguindo projetar o yuan como uma moeda funcional para o comércio internacional, especialmente com países do Sul Global. Países como a Índia também têm se beneficiado do fortalecimento institucional, com aumento do uso da rúpia em acordos bilaterais e avanço na digitalização dos pagamentos.
Considerações finais
A hegemonia do dólar não será substituída por uma única moeda rival, mas diluída por meio da ascensão de diversas moedas lastreadas em instituições confiáveis. A emergência do yuan, da rúpia e até de moedas digitais soberanas sugere um novo paradigma. A moeda do século XXI será aquela capaz de inspirar confiança não apenas por seu lastro financeiro, mas pela robustez institucional do Estado que a emite.
Ao mesmo tempo, países que insistirem em estruturas extrativistas permanecerão economicamente isolados, com moedas instáveis e vulneráveis. A disputa cambial do futuro será, acima de tudo, uma disputa institucional.
Referência
ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James A. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
Perfil no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/lucas-l-7960392a8
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