Por Lucas Luft
Estudante de Economia – UEPG
1 Introdução
O agravamento do conflito geopolítico entre Israel e Irã, iniciado em abril de 2025, gerou um dos maiores choques exógenos da década sobre o sistema econômico global. A escalada militar no Oriente Médio afetou diretamente os fluxos de petróleo e os canais logísticos do comércio internacional, elevando o preço do barril Brent em aproximadamente dezessete por cento no último mês (FMI, 2025). Paralelamente, houve aumento da volatilidade nos mercados financeiros, com o índice VXEWZ atingindo 27,4 pontos, sinalizando forte aversão ao risco no mercado brasileiro.
Embora o Brasil não seja ator direto no conflito, sua inserção na economia global torna inevitáveis os efeitos domésticos. Este ensaio tem como objetivo analisar os impactos da guerra Israel-Irã sobre a economia brasileira sob a ótica da Nova Economia Institucional (NEI), considerando a capacidade das instituições nacionais de mitigar choques externos. A abordagem teórica fundamenta-se nas contribuições de North (1990), Williamson (1985) e Acemoglu e Robinson (2012).
2 Referencial Teórico: Economia Institucional e Choques Exógenos
A Nova Economia Institucional (NEI) define instituições como “as regras do jogo em uma sociedade” (NORTH, 1990), englobando normas formais (leis, regulações) e informais (costumes, confiança social). Em contextos de choques externos, como crises geopolíticas, a capacidade das instituições nacionais de reduzir incertezas, coordenar respostas e manter a previsibilidade das regras torna-se fundamental (WILLIAMSON, 1985).
Acemoglu e Robinson (2012) destacam que instituições inclusivas, com governança sólida, são mais resilientes a choques, ao passo que instituições extrativas tendem a amplificar os impactos negativos.
3 Metodologia
A análise adota uma abordagem qualitativa com suporte em dados secundários, utilizando:
- Indicadores macroeconômicos recentes (Banco Central do Brasil, IPEA, FMI);
- Benchmarking com choques similares (Crise do Petróleo de 1973, Guerra do Golfo em 1990 e a Crise Global de 2008);
- Modelo analítico de canais de transmissão (preços, câmbio, fiscal, expectativas), com ênfase institucional.
4 Canais Institucionais de Transmissão dos Impactos
4.1 Canal de Preços de Commodities
Desde maio de 2025, o preço internacional do barril Brent subiu de US$ 66 para US$ 77 (FMI, 2025), representando uma alta de 17% em um mês. Esse movimento já impulsionou o Índice de Preços ao Produtor (IPP) brasileiro em aproximadamente 4,2% nos últimos dois meses (IBGE, 2025). A política de paridade internacional de preços da Petrobras amplia a transmissão desse choque para o consumidor final.
Impacto institucional: O regime de metas de inflação enfrenta pressão adicional, exigindo uma postura mais restritiva por parte do Banco Central. Isso se reflete na atual taxa Selic, fixada em 14,75% ao ano desde maio de 2025, conforme o Relatório Focus de junho de 2025.
4.2 Canal Cambial
O Brasil registrou uma saída líquida de capital estrangeiro de aproximadamente US$ 3,5 bilhões em abril de 2025 (BACEN, 2025), com o dólar oscilando entre R$ 5,47 e R$ 5,55 nas semanas seguintes. O Credit Default Swap (CDS) de cinco anos, termômetro do risco-país, permaneceu na faixa de 150 a 152 pontos-base em junho (IPEA, 2025).
Impacto institucional: O Banco Central intensificou os leilões de swap cambial e mantém à disposição as reservas internacionais, atualmente em US$ 345 bilhões, para evitar uma desvalorização desordenada.
4.3 Canal Fiscal
A inflação e a desaceleração da atividade econômica aumentam a pressão por medidas fiscais expansionistas, como desonerações e subsídios emergenciais. O novo arcabouço fiscal, em vigor desde 2024, impõe limites à expansão de gastos, mas a rigidez das despesas obrigatórias restringe a margem de manobra.
Impacto institucional: O risco de flexibilização oportunista das regras fiscais aumenta, podendo prejudicar a credibilidade fiscal recentemente conquistada.
4.4 Canal de Expectativas
A combinação de choques nos preços, câmbio e incerteza política afeta os indicadores de confiança. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) recuou 5,1 pontos entre abril e junho de 2025 (CNI, 2025), enquanto o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu 4,3 pontos no mesmo período (FGV, 2025).
Impacto institucional: A capacidade de comunicação eficiente das autoridades monetária, fiscal e regulatória será determinante para evitar uma espiral negativa de expectativas.
5 Benchmarking: Lições de Choques Anteriores
Durante a Crise do Petróleo de 1973, o Brasil respondeu com expansão de endividamento externo, gerando vulnerabilidades na década seguinte. Já na crise de 2008, a resposta institucional foi mais coordenada, com uso de reservas cambiais e políticas anticíclicas bem calibradas.
Comparando os dois períodos, observa-se que a qualidade das instituições econômicas brasileiras avançou, especialmente na política monetária e na gestão da dívida pública (IFI, 2025).
6 Respostas Institucionais em Curso
- Banco Central do Brasil: Manutenção da Selic em 14,75% e intensificação das intervenções cambiais.
- Ministério da Fazenda: Estudo de medidas fiscais compensatórias com foco em neutralidade orçamentária.
- Petrobras: Monitoramento da política de preços com eventual uso de colchões fiscais para suavização de repasses.
- Congresso Nacional: Discussões sobre eventuais créditos extraordinários com observância do novo arcabouço fiscal.
- Instituições de Controle (TCU e IFI): Monitoramento rigoroso dos impactos fiscais e da sustentabilidade da dívida pública.
7 Comparação Internacional: Respostas Institucionais de Países Emergentes
México:
Devido à maior integração com os Estados Unidos e menor dependência energética, o México enfrentou impacto limitado no canal de preços de combustíveis. Contudo, houve forte pressão cambial, com o peso mexicano desvalorizando cerca de 6% desde abril de 2025 (Banco Central do México, 2025).
Turquia:
A Turquia, com reservas externas frágeis e inflação estruturalmente alta, registrou deterioração mais acentuada no risco-país, com o CDS de cinco anos ultrapassando 400 pontos-base (IMF, 2025).
África do Sul:
A África do Sul, já afetada por crises internas e problemas energéticos, respondeu com medidas fiscais restritivas e limitada capacidade de atuação monetária (South African Reserve Bank, 2025).
Análise Comparativa: Em relação a esses países, o Brasil demonstra maior resiliência institucional, com destaque para a política monetária e o volume de reservas internacionais, embora o risco de retrocessos fiscais persista.
8 Exercício de Simulação: Projeção de Impacto no IPCA, Resultado Fiscal e Câmbio
8.1 Impacto no IPCA
Premissa: Cada aumento de 10% no preço do petróleo implica, historicamente, um repasse médio de 0,25 p.p. ao IPCA (IPEA, 2011).
Cálculo: Com uma alta de 17%, o impacto projetado é de aproximadamente 0,4 p.p. no IPCA de 2025.
8.2 Impacto Fiscal
Premissa: Crises anteriores geraram estímulos entre 0,5% e 1,0% do PIB (IFI, 2020).
Estimativa: Para um PIB de R$ 11 trilhões, um estímulo de 0,7% representaria R$ 77 bilhões.
8.3 Projeção Cambial
Premissa: A cada 50 pontos-base de aumento no CDS, o real tende a se desvalorizar de 4% a 6% (IPEA, 2022).
Com base no aumento de 40 pontos-base no CDS (de 110 para 150), projeta-se uma depreciação de 3% a 5%, levando o dólar para a faixa de R$ 5,70 a R$ 6,00 caso o cenário de estresse persista.
8.4 Limitações
Os cálculos são baseados em médias históricas e pressupõem relações lineares de curto prazo, sem considerar efeitos de segunda ordem ou modelos estruturais.
9 Cenários Prospectivos: Riscos e Trajetórias Possíveis
9.1 Cenário Otimista
- Cessação rápida das hostilidades
- normalização dos preços
- Disciplina fiscal preservada.
9.2 Cenário Moderado
- Conflito prolongado
- Petróleo entre US$ 90 e US$ 110
- Selic elevada
- Risco fiscal moderado.
9.3 Cenário Pessimista
- Escalada regional
- Brent acima de US$ 120
- Descontrole fiscal
- Inflação acima de 7%.
10 Considerações Finais
A guerra entre Israel e Irã representa um teste relevante para a capacidade institucional do Brasil. A resposta até o momento tem sido consistente com os princípios de responsabilidade fiscal, política monetária conservadora e gestão prudente das reservas cambiais.
No entanto, o cenário permanece volátil. A manutenção da disciplina macroeconômica, a comunicação transparente e o fortalecimento institucional serão determinantes para limitar os impactos de longo prazo.
Referências
- ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James. Por que as nações fracassam. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
- NORTH, Douglass C. Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
- WILLIAMSON, Oliver E. The Economic Institutions of Capitalism. New York: Free Press, 1985.
- FMI. World Economic Outlook Update. Washington D.C.: IMF, maio 2025.
- BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Inflação e Estatísticas Cambiais. Brasília: Bacen, 2025.
- IPEA. Impactos Macroeconômicos de Choques Externos. Brasília: IPEA, 2011/2022.
- IFI. Relatório de Acompanhamento Fiscal. Brasília: Senado Federal, 2025.
Perfil no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/lucas-l-7960392a8
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