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terça-feira, 17 de junho de 2025

Impactos Institucionais da Guerra entre Israel e Irã sobre a Economia Brasileira: Uma Análise sob a Perspectiva da Nova Economia Institucional

Por Lucas Luft




Estudante de Economia – UEPG




1 Introdução


          O agravamento do conflito geopolítico entre Israel e Irã, iniciado em abril de 2025, gerou um dos maiores choques exógenos da década sobre o sistema econômico global. A escalada militar no Oriente Médio afetou diretamente os fluxos de petróleo e os canais logísticos do comércio internacional, elevando o preço do barril Brent em aproximadamente dezessete por cento no último mês (FMI, 2025). Paralelamente, houve aumento da volatilidade nos mercados financeiros, com o índice VXEWZ atingindo 27,4 pontos, sinalizando forte aversão ao risco no mercado brasileiro.

        Embora o Brasil não seja ator direto no conflito, sua inserção na economia global torna inevitáveis os efeitos domésticos. Este ensaio tem como objetivo analisar os impactos da guerra Israel-Irã sobre a economia brasileira sob a ótica da Nova Economia Institucional (NEI), considerando a capacidade das instituições nacionais de mitigar choques externos. A abordagem teórica fundamenta-se nas contribuições de North (1990), Williamson (1985) e Acemoglu e Robinson (2012).


2 Referencial Teórico: Economia Institucional e Choques Exógenos


           A Nova Economia Institucional (NEI) define instituições como “as regras do jogo em uma sociedade” (NORTH, 1990), englobando normas formais (leis, regulações) e informais (costumes, confiança social). Em contextos de choques externos, como crises geopolíticas, a capacidade das instituições nacionais de reduzir incertezas, coordenar respostas e manter a previsibilidade das regras torna-se fundamental (WILLIAMSON, 1985).

         Acemoglu e Robinson (2012) destacam que instituições inclusivas, com governança sólida, são mais resilientes a choques, ao passo que instituições extrativas tendem a amplificar os impactos negativos.


3 Metodologia


          A análise adota uma abordagem qualitativa com suporte em dados secundários, utilizando:

  1.  Indicadores macroeconômicos recentes (Banco Central do Brasil, IPEA, FMI);
  2.  Benchmarking com choques similares (Crise do Petróleo de 1973, Guerra do Golfo em 1990 e a Crise Global de 2008);
  3. Modelo analítico de canais de transmissão (preços, câmbio, fiscal, expectativas), com ênfase institucional.



4 Canais Institucionais de Transmissão dos Impactos


4.1 Canal de Preços de Commodities

         Desde maio de 2025, o preço internacional do barril Brent subiu de US$ 66 para US$ 77 (FMI, 2025), representando uma alta de 17% em um mês. Esse movimento já impulsionou o Índice de Preços ao Produtor (IPP) brasileiro em aproximadamente 4,2% nos últimos dois meses (IBGE, 2025). A política de paridade internacional de preços da Petrobras amplia a transmissão desse choque para o consumidor final.

        Impacto institucional: O regime de metas de inflação enfrenta pressão adicional, exigindo uma postura mais restritiva por parte do Banco Central. Isso se reflete na atual taxa Selic, fixada em 14,75% ao ano desde maio de 2025, conforme o Relatório Focus de junho de 2025.


4.2 Canal Cambial

        O Brasil registrou uma saída líquida de capital estrangeiro de aproximadamente US$ 3,5 bilhões em abril de 2025 (BACEN, 2025), com o dólar oscilando entre R$ 5,47 e R$ 5,55 nas semanas seguintes. O Credit Default Swap (CDS) de cinco anos, termômetro do risco-país, permaneceu na faixa de 150 a 152 pontos-base em junho (IPEA, 2025).

        Impacto institucional: O Banco Central intensificou os leilões de swap cambial e mantém à disposição as reservas internacionais, atualmente em US$ 345 bilhões, para evitar uma desvalorização desordenada.


4.3 Canal Fiscal

         A inflação e a desaceleração da atividade econômica aumentam a pressão por medidas fiscais expansionistas, como desonerações e subsídios emergenciais. O novo arcabouço fiscal, em vigor desde 2024, impõe limites à expansão de gastos, mas a rigidez das despesas obrigatórias restringe a margem de manobra.

        Impacto institucional: O risco de flexibilização oportunista das regras fiscais aumenta, podendo prejudicar a credibilidade fiscal recentemente conquistada.


4.4 Canal de Expectativas

        A combinação de choques nos preços, câmbio e incerteza política afeta os indicadores de confiança. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) recuou 5,1 pontos entre abril e junho de 2025 (CNI, 2025), enquanto o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) caiu 4,3 pontos no mesmo período (FGV, 2025).

      Impacto institucional: A capacidade de comunicação eficiente das autoridades monetária, fiscal e regulatória será determinante para evitar uma espiral negativa de expectativas.



5 Benchmarking: Lições de Choques Anteriores

        Durante a Crise do Petróleo de 1973, o Brasil respondeu com expansão de endividamento externo, gerando vulnerabilidades na década seguinte. Já na crise de 2008, a resposta institucional foi mais coordenada, com uso de reservas cambiais e políticas anticíclicas bem calibradas.

       Comparando os dois períodos, observa-se que a qualidade das instituições econômicas brasileiras avançou, especialmente na política monetária e na gestão da dívida pública (IFI, 2025).


6 Respostas Institucionais em Curso

  1. Banco Central do Brasil: Manutenção da Selic em 14,75% e intensificação das intervenções cambiais.
  2.  Ministério da Fazenda: Estudo de medidas fiscais compensatórias com foco em neutralidade orçamentária.
  3. Petrobras: Monitoramento da política de preços com eventual uso de colchões fiscais para suavização de repasses.
  4. Congresso Nacional: Discussões sobre eventuais créditos extraordinários com observância do novo arcabouço fiscal.
  5. Instituições de Controle (TCU e IFI): Monitoramento rigoroso dos impactos fiscais e da sustentabilidade da dívida pública.


7 Comparação Internacional: Respostas Institucionais de Países Emergentes


México:

        Devido à maior integração com os Estados Unidos e menor dependência energética, o México enfrentou impacto limitado no canal de preços de combustíveis. Contudo, houve forte pressão cambial, com o peso mexicano desvalorizando cerca de 6% desde abril de 2025 (Banco Central do México, 2025).


Turquia:

        A Turquia, com reservas externas frágeis e inflação estruturalmente alta, registrou deterioração mais acentuada no risco-país, com o CDS de cinco anos ultrapassando 400 pontos-base (IMF, 2025).


África do Sul:

       A África do Sul, já afetada por crises internas e problemas energéticos, respondeu com medidas fiscais restritivas e limitada capacidade de atuação monetária (South African Reserve Bank, 2025).


        Análise Comparativa: Em relação a esses países, o Brasil demonstra maior resiliência institucional, com destaque para a política monetária e o volume de reservas internacionais, embora o risco de retrocessos fiscais persista.


8 Exercício de Simulação: Projeção de Impacto no IPCA, Resultado Fiscal e Câmbio


8.1 Impacto no IPCA

Premissa: Cada aumento de 10% no preço do petróleo implica, historicamente, um repasse médio de 0,25 p.p. ao IPCA (IPEA, 2011).

Cálculo: Com uma alta de 17%, o impacto projetado é de aproximadamente 0,4 p.p. no IPCA de 2025.


8.2 Impacto Fiscal

Premissa: Crises anteriores geraram estímulos entre 0,5% e 1,0% do PIB (IFI, 2020).

Estimativa: Para um PIB de R$ 11 trilhões, um estímulo de 0,7% representaria R$ 77 bilhões.


8.3 Projeção Cambial

Premissa: A cada 50 pontos-base de aumento no CDS, o real tende a se desvalorizar de 4% a 6% (IPEA, 2022).

Com base no aumento de 40 pontos-base no CDS (de 110 para 150), projeta-se uma depreciação de 3% a 5%, levando o dólar para a faixa de R$ 5,70 a R$ 6,00 caso o cenário de estresse persista.


8.4 Limitações

        Os cálculos são baseados em médias históricas e pressupõem relações lineares de curto prazo, sem considerar efeitos de segunda ordem ou modelos estruturais.


9 Cenários Prospectivos: Riscos e Trajetórias Possíveis


9.1 Cenário Otimista

  1. Cessação rápida das hostilidades
  2.  normalização dos preços 
  3. Disciplina fiscal preservada.


9.2 Cenário Moderado

  1. Conflito prolongado
  2. Petróleo entre US$ 90 e US$ 110
  3.  Selic elevada 
  4. Risco fiscal moderado.


9.3 Cenário Pessimista

  1. Escalada regional
  2. Brent acima de US$ 120
  3. Descontrole fiscal 
  4.  Inflação acima de 7%.


10 Considerações Finais


           A guerra entre Israel e Irã representa um teste relevante para a capacidade institucional do Brasil. A resposta até o momento tem sido consistente com os princípios de responsabilidade fiscal, política monetária conservadora e gestão prudente das reservas cambiais.

         No entanto, o cenário permanece volátil. A manutenção da disciplina macroeconômica, a comunicação transparente e o fortalecimento institucional serão determinantes para limitar os impactos de longo prazo.


Referências

  1. ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James. Por que as nações fracassam. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.
  2. NORTH, Douglass C. Institutions, Institutional Change and Economic Performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
  3. WILLIAMSON, Oliver E. The Economic Institutions of Capitalism. New York: Free Press, 1985.
  4. FMI. World Economic Outlook Update. Washington D.C.: IMF, maio 2025.
  5. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Inflação e Estatísticas Cambiais. Brasília: Bacen, 2025.
  6. IPEA. Impactos Macroeconômicos de Choques Externos. Brasília: IPEA, 2011/2022.
  7. IFI. Relatório de Acompanhamento Fiscal. Brasília: Senado Federal, 2025.





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