Por
Lucas Luft
Estudante
de Economia – UEPG
RESUMO
Este ensaio examina a hipótese de que, no Brasil pós-1988, a alternância eleitoral não resulta em alternância estrutural de poder. A partir da economia institucional e da teoria das elites, argumenta-se que a competição partidária opera dentro de limites que preservam o controle do Estado, dos recursos econômicos e dos mecanismos decisórios por uma elite permanente. O texto adota abordagem teórico-argumentativa, sem pretensão de comprovação empírica nesta etapa; sua finalidade é estabelecer o quadro conceitual que sustentará análises futuras de caráter quantitativo e comparativo. A discussão preliminar indica que a rotatividade de governos funciona mais como mecanismo de legitimação democrática do que como redistribuição institucional do poder. A próxima fase da pesquisa buscará testar a hipótese por meio de evidências empíricas, tais como redes de elite, padrões de financiamento político e permanência burocrático-institucional. Conclui-se que a alternância eleitoral, isoladamente, é indicador insuficiente de democratização substantiva.
Palavras-chave: instituições políticas; elite
permanente; alternância eleitoral; economia institucional; poder estrutural.
ABSTRACT
This essay examines the hypothesis that, in post-1988 Brazil, electoral alternation does not generate structural alternation of power. Drawing on institutional economics and elite theory, it argues that party competition operates within institutional boundaries that preserve control of the state, economic resources, and decision-making mechanisms in the hands of a permanent elite. The text is intentionally theoretical and argumentative, without claiming empirical demonstration at this stage; its purpose is to establish the conceptual basis for a broader research agenda that will later include quantitative and comparative evidence. Preliminary analysis suggests that the rotation of governments functions more as a mechanism of democratic legitimacy than as a redistribution of institutional power. The next phase of the study will empirically test this hypothesis through indicators such as elite networks, political finance structures, and bureaucratic continuity. The essay concludes that electoral alternation alone is an insufficient indicator of substantive democratization.
Keywords: political
institutions; permanent elite; electoral alternation; institutional economics;
structural power.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
-
0.1
Limitações metodológicas e delimitação do objeto
CAPÍTULO
1 – A ELITE PERMANENTE E A ESTRUTURA DE ROTATIVIDADE POLÍTICA NO BRASIL
- 1.1.
Conceito de elite dominante e alternância controlada
- 1.2.
Diferença entre governo, regime político e estrutura de poder
- 1.3.
O Brasil pós-1988 como caso de pluralismo limitado
- 1.4.
Continuidade institucional apesar da alternância partidária
- 1.5.
Bases estruturais que impedem a alternância real de poder
• 1.5.1. Financiamento
político e barreiras de entrada partidária
• 1.5.2. Controle
econômico dos meios de produção e crédito
• 1.5.3. Dependência
federativa e poder territorial das oligarquias
• 1.5.4. Judicialização
da política e poder institucional não eletivo
• 1.5.5. Dependência
midiática como filtro de legitimidade pública
- 1.6.
A circulação de atores políticos como evidência empírica do sistema
- 1.7.
A polarização política como instrumento de legitimação institucional
- 1.8.
Síntese e conexão com a tese central
CAPÍTULO
2 – A ROTATIVIDADE POLÍTICA EM PERSPECTIVA INTERNACIONAL
- 2.1.
Critério de comparação e justificativa metodológica
- 2.2.
Estados Unidos: bipartidarismo e estabilidade do poder econômico
- 2.3.
México: fim do partido único e continuidade da elite dominante
- 2.4.
Chile: alternância ideológica sob continuidade econômica
- 2.5.
África do Sul: mudança política sem redistribuição estrutural
- 2.6.
Síntese comparativa: o padrão de “democracia com elite fixa”
CAPÍTULO
3 – MECANISMOS DE RUPTURA INSTITUCIONAL E TRANSIÇÃO DE SISTEMAS EXTRATIVOS
- 3.1.
A estabilidade dos sistemas extrativos e o conceito de bloqueio
institucional
- 3.2.
Vias históricas de ruptura institucional
• 3.2.1. Ruptura violenta
(revolução ou guerra civil)
• 3.2.2. Colapso estatal
ou econômico
• 3.2.3. Reforma pactuada
com redistribuição de poder
- 3.3.
Condições necessárias para substituição da elite dominante
- 3.4.
O papel das coalizões sociais, das crises internas e dos choques externos
- 3.5.
Razões pelas quais rupturas fracassam ou são revertidas
- 3.6.
Aplicação do modelo ao caso brasileiro contemporâneo
- 3.7.
Síntese conclusiva: ruptura institucional ≠ mudança eleitoral
- 3.8. Críticas
possíveis à tese e resposta teórica.
4.
AGENDA DE PESQUISA
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS
INTRODUÇÃO
A
alternância eleitoral é frequentemente tratada como indicador de vitalidade
democrática, pressupondo que a rotatividade de governos representa
redistribuição efetiva de poder político. No entanto, a literatura
institucional demonstra que eleições competitivas podem coexistir com
estruturas estáveis de dominação, nas quais a substituição de governantes não
altera o controle dos recursos estratégicos do Estado. Em tais sistemas, a
disputa eleitoral opera dentro de limites previamente definidos, funcionando como
mecanismo de legitimação, e não de transformação institucional.
Partindo
dessa perspectiva, este ensaio examina o caso brasileiro desde a promulgação da
Constituição de 1988. Apesar da sucessão de governos ideologicamente distintos,
as bases estruturais do poder — econômicas, jurídicas, territoriais, midiáticas
e burocráticas — permaneceram amplamente constantes. A hipótese central é a de
que a alternância eleitoral no Brasil não produz alternância de poder, pois o
sistema político opera sob a lógica de uma elite permanente, capaz de controlar
os mecanismos de veto e de limitar a ação de governos eleitos.
Essa
interpretação se afasta das análises centradas em ciclos partidários ou em
desempenho governamental, privilegiando em seu lugar a abordagem institucional
de longa duração. O foco não recai sobre o conteúdo programático de cada
governo, mas sobre a continuidade dos atores e das estruturas que condicionam a
ação estatal. Nesse sentido, a economia institucional, a teoria das elites e a
ciência política comparada constituem o arcabouço teórico que orienta a
investigação.
O
objetivo geral do estudo é demonstrar que, no Brasil, a alternância eleitoral
opera como mecanismo de renovação formal que preserva a estabilidade das
estruturas de poder. Como objetivos específicos, busca-se: (a) identificar os
elementos institucionais responsáveis pela continuidade da elite dominante no
período pós-1988; (b) comparar o caso brasileiro com outros sistemas
democráticos que apresentam rotatividade eleitoral sem redistribuição
institucional; (c) analisar por que sistemas extrativos só são superados
mediante ruptura, e não por alternância de governo; e (d) discutir as
implicações dessa constatação para o conceito de democracia.
O
trabalho está organizado em três capítulos. O Capítulo 1 analisa o caso
brasileiro, descrevendo os mecanismos que viabilizam a continuidade da elite
dominante apesar da alternância partidária. O Capítulo 2 apresenta a comparação
internacional, examinando sistemas que compartilham o mesmo padrão de
rotatividade política com estabilidade estrutural. O Capítulo 3 discute as
condições históricas de ruptura institucional, demonstrando porque a
transformação de sistemas extrativos não decorre de processos eleitorais, mas
de quebras estruturais. A conclusão retoma os resultados e aponta implicações
teóricas e de pesquisa futura.
Ao
distinguir alternância de governo e alternância de poder, este ensaio busca
contribuir para o debate sobre os limites da democracia brasileira,
evidenciando que a existência de eleições competitivas não é suficiente para
caracterizar redistribuição institucional. A compreensão da política, portanto,
exige ir além do movimento visível nas urnas e examinar as estruturas que
definem quem pode — e quem não pode — exercer o poder.
0.1
LIMITAÇÕES METODOLÓGICAS E DELIMITAÇÃO DO OBJETO
A natureza deste trabalho é essencialmente teórica e
analítico-comparativa. A investigação fundamenta-se em literatura especializada
da economia institucional, da teoria das elites e da ciência política
comparada, complementada por evidências históricas de longa duração. Não são
utilizados modelos estatísticos, séries temporais nem dados empíricos
primários, uma vez que o objetivo central não é testar hipóteses quantitativas,
mas analisar a estrutura de poder subjacente ao sistema político brasileiro.
A escolha metodológica se justifica porque a concentração institucional
de poder — assim como a permanência de elites — não se manifesta
prioritariamente por meio de variáveis observáveis em curto prazo (como taxa de
aprovação presidencial, votos parlamentares ou ciclos econômicos), mas por
mecanismos estruturais e cumulativos, dificilmente capturáveis por métricas
convencionais. Dessa forma, o estudo trabalha com categorias analíticas (como
“elite permanente”, “pluralismo limitado” e “bloqueio institucional”) em vez de
indicadores numéricos.
Essa abordagem implica algumas limitações:
(a)
não se busca demonstrar causalidade estatística entre alternância eleitoral e
desempenho econômico ou social;
(b)
os resultados não permitem estimar probabilidades de ruptura institucional
futura;
(c)
a análise depende da consistência argumentativa e comparativa, e não da
mensuração empírica direta.
Entretanto, essa limitação é compensada pela adequação entre método e
objeto: sistemas de poder estrutural não se deixam capturar por métricas de
curto prazo, mas por análise institucional longitudinal, o que justifica o
caminho teórico adotado.
CAPÍTULO
1 – A ELITE PERMANENTE E A ESTRUTURA DE ROTATIVIDADE POLÍTICA NO BRASIL
A literatura institucional e a
teoria das elites sustentam que a existência de eleições competitivas não
implica, por si só, redistribuição de poder político. Autores clássicos como
Mosca (1939), Pareto (1991) e Mills (1956) demonstram que elites tendem a se
reproduzir ao longo do tempo, mesmo em regimes democráticos, por meio de
processos de circulação interna que renovam atores, mas preservam estruturas de
comando. Nessa perspectiva, a alternância eleitoral pode funcionar como
mecanismo de substituição de agentes, mas não de substituição das bases
institucionais que definem quem controla o Estado.
A distinção conceitual entre
governo, regime político e estrutura de poder é fundamental para compreender
por que mudanças eleitorais não necessariamente resultam em mudanças
institucionais. Governo refere-se ao conjunto de agentes temporariamente responsáveis
pela gestão estatal. Regime político diz respeito às regras que definem acesso
ao governo, como eleições, sistema partidário e separação de poderes. A
estrutura de poder, por sua vez, corresponde ao controle efetivo dos mecanismos
estratégicos do Estado: finanças públicas, aparato coercitivo, burocracia
permanente, mídia, formas de financiamento político e arcabouço jurídico.
A Constituição de 1988 inaugurou um regime democrático formal, com
multipartidarismo, eleições periódicas, ampliação de direitos civis e liberdade
de organização política. No entanto, a transição ocorreu por negociação, e não
por ruptura, preservando os grupos que já controlavam os principais recursos
econômicos, jurídicos e comunicacionais do país. A redemocratização, portanto,
alterou o regime político, mas não redistribuiu o poder estrutural.
1.1
CONCEITO DE ELITE DOMINANTE E ALTERNÂNCIA CONTROLADA
A noção de alternância controlada
descreve esse fenômeno: governos se alternam, partidos disputam eleições e
narrativas ideológicas se revezam, mas os grupos que detêm o controle de
recursos estratégicos permanecem no centro do sistema. A rotatividade institucional,
portanto, opera como instrumento de estabilidade e legitimação, e não como
processo de redistribuição de poder.
Síntese: A alternância eleitoral pode
mudar governantes, mas não altera automaticamente o grupo que exerce controle
estrutural sobre o Estado.
1.2
DIFERENÇA ENTRE GOVERNO, REGIME POLÍTICO E ESTRUTURA DE PODER
Em democracias estáveis, governos
podem mudar sem que o regime político mude; e regimes políticos podem mudar sem
que a estrutura de poder seja alterada. É nesse nível estrutural que reside a
hipótese central deste trabalho: a alternância de governo no Brasil não implica
alternância de poder, porque as bases institucionais que sustentam o sistema
permanecem intactas desde a redemocratização.
Síntese: Eleições podem substituir
governantes, mas não substituem necessariamente o centro de decisão do Estado.
1.3
O BRASIL PÓS-1988 COMO CASO DE PLURALISMO LIMITADO
A partir de 1994, a alternância
entre governos de diferentes espectros ideológicos reforçou a imagem de
pluralismo democrático. Porém, a continuidade de políticas fiscais,
financeiras, fundiárias, tributárias e midiáticas revela que a disputa
eleitoral ocorreu dentro de limites institucionais que restringem a
transformação estrutural. O resultado é um sistema de pluralismo limitado: há
competição eleitoral, mas ela não afeta o núcleo de decisão do poder estatal,
pois os mecanismos de veto permanecem sob controle de uma elite permanente.
Síntese: O Brasil apresenta pluralismo
eleitoral, mas não pluralismo institucional, pois a alternância de partidos não
transforma a estrutura de poder.
1.4
CONTINUIDADE INSTITUCIONAL APESAR DA ALTERNÂNCIA PARTIDÁRIA
A sucessão de governos desde 1988,
ainda que marcada por diferenças ideológicas e partidárias, não resultou em
transformações estruturais do Estado brasileiro. Em áreas estratégicas, como
política macroeconômica, sistema tributário, modelo de crédito, estrutura
fundiária e desenho federativo, observa-se uma continuidade que transcende o
ciclo eleitoral. Essa estabilidade não pode ser explicada apenas pela moderação
programática dos partidos, mas pela existência de limites institucionais que
operam como barreiras à mudança substantiva.
A manutenção desses marcos
estruturais evidencia que a disputa eleitoral afeta preferências
administrativas, mas não redefine os mecanismos de acumulação econômica nem os
centros permanentes de poder estatal. Assim, a alternância governamental
funciona como substituição de gestores, e não como reconfiguração
institucional.
Síntese: Governos mudam, mas as
instituições que sustentam o poder político no Brasil permanecem essencialmente
as mesmas.
1.5
BASES ESTRUTURAIS QUE IMPEDEM A ALTERNÂNCIA REAL DE PODER
A continuidade da elite dominante
não deriva apenas de preferências políticas, mas de fatores institucionais que
limitam a capacidade de ruptura dos governos eleitos. Entre os principais
elementos que mantêm a blindagem do sistema, destacam-se:
1.5.1
FINANCIAMENTO POLÍTICO E BARREIRAS DE ENTRADA PARTIDÁRIA
O acesso desigual a financiamento
eleitoral, exposição midiática e redes de apoio econômico opera como filtro
estrutural de competição. Mesmo após mudanças legais, o financiamento indireto
de campanhas e a concentração de recursos partidários mantêm o sistema
dependente de agentes com capital financeiro, restringindo a renovação real das
forças políticas.
1.5.2
CONTROLE ECONÔMICO DOS MEIOS DE PRODUÇÃO E CRÉDITO
A alta concentração de capital e a
centralidade do sistema financeiro na formulação de políticas públicas limitam
os efeitos redistributivos de governos eleitos. A dependência estrutural do
crédito privado, somada à autonomia institucional das autoridades monetárias,
reduz a capacidade do Executivo de alterar o modelo econômico em bases
estruturais.
1.5.3
DEPENDÊNCIA FEDERATIVA E PODER TERRITORIAL DAS OLIGARQUIAS
A organização federativa brasileira
preserva elites regionais com controle político, econômico e jurídico sobre
seus territórios. Essas elites funcionam como mediadoras entre o governo
federal e o Congresso, condicionando a governabilidade e restringindo mudanças
estruturais de caráter nacional.
1.5.4
JUDICIALIZAÇÃO DA POLÍTICA E PODER INSTITUCIONAL NÃO ELETIVO
Desde os anos 1990, carreiras de
Estado como Judiciário, Ministério Público, alta burocracia federal e órgãos de
controle adquiriram poder de veto que independe do ciclo eleitoral. Isso
desloca parte da autoridade decisória para instâncias não sujeitas ao voto,
restringindo o alcance de reformas propostas por governos eleitos.
1.5.5
DEPENDÊNCIA MIDIÁTICA COMO FILTRO DE LEGITIMIDADE PÚBLICA
A concentração dos meios de
comunicação e sua capacidade de construir ou deslegitimar projetos políticos
torna qualquer tentativa de transformação estrutural dependente do
consentimento de grupos privados que controlam a esfera pública. A disputa
eleitoral, assim, ocorre sob enquadramento assimétrico de visibilidade e
aceitação social.
Síntese: A elite se mantém porque controla
não apenas o governo, mas os mecanismos que definem quem pode governar e até
onde um governo pode agir.
1.6
A CIRCULAÇÃO DE ATORES POLÍTICOS COMO EVIDÊNCIA EMPÍRICA DA ELITE PERMANENTE
Um dos indicativos mais claros de
que a alternância eleitoral não altera o núcleo de poder é a recorrente
circulação dos mesmos agentes entre governos ideologicamente distintos.
Ministros da área econômica, formuladores de política monetária e dirigentes de
estatais transitaram entre administrações rivais sem perda de influência,
revelando que o acesso ao centro decisório não depende de partidarismo, mas de
integração às redes institucionais da elite estatal e empresarial.
Além disso, partidos que compõem a
base de apoio de um governo podem migrar para a oposição e retornar ao poder em
ciclos posteriores, sem que isso altere sua posição estrutural no sistema. Da
mesma forma, grandes grupos econômicos e financeiros mantêm relação funcional
com governos de diferentes orientações, preservando subsídios, isenções,
contratos públicos e influência legislativa.
Essa mobilidade seletiva indica que
a mudança eleitoral reorganiza cargos, mas não redistribui poder decisório. A
elite se adapta à rotatividade partidária porque a rotatividade partidária não
ameaça a elite.
Síntese: Se os mesmos atores continuam
decisivos ao longo de governos opostos, então o que muda não é o poder, mas
apenas quem o administra temporariamente.
1.7
A POLARIZAÇÃO POLÍTICA COMO INSTRUMENTO DE LEGITIMAÇÃO INSTITUCIONAL
A crescente polarização eleitoral
no Brasil tende a ser interpretada como sinal de conflito político real e
disputa por projetos antagônicos de sociedade. No entanto, quando observada sob
a ótica institucional, a polarização cumpre uma função inversa: ela reforça a
estabilidade do sistema ao deslocar o conflito para o plano simbólico,
impedindo que se converta em pressão estrutural sobre os centros permanentes de
poder.
A análise das bases institucionais, dos mecanismos de reprodução de elites
e da circulação seletiva de atores políticos demonstra que o Brasil configura
um caso de alternância controlada: há mudança eleitoral, mas não há
redistribuição de poder. O país reúne todos os elementos descritos pela
literatura institucional como típicos de democracias com elite fixa:
concentração econômica, controle da mídia, autonomia de carreiras estatais,
dependência financeira de campanhas e permanência de políticas estratégicas
independentemente do governo eleito.
A oposição discursiva entre
“direita” e “esquerda” produz identidade política e mobilização eleitoral, mas
não altera os pilares da política econômica, da estrutura fundiária, da
distribuição tributária, do poder midiático ou do arranjo federativo. A narrativa
de antagonismo opera como válvula de escape: o eleitor acredita estar decidindo
entre projetos incompatíveis, embora ambos sejam obrigados a governar dentro
das mesmas fronteiras institucionais.
Assim, a polarização funciona como
mecanismo de legitimação do sistema, não como ameaça ao seu núcleo. Ao
transformar disputa eleitoral em espetáculo moral, ela impede que a divergência
programática se traduza em redistribuição de poder real.
Síntese: O conflito político é intenso no
discurso, mas inofensivo na estrutura, porque a polarização preserva o sistema
que diz combater.
1.8
SÍNTESE E CONEXÃO COM A TESE CENTRAL
Essa configuração demonstra que a
alternância eleitoral opera como procedimento de legitimação do sistema, não
como instrumento de transformação institucional. A disputa partidária
reorganiza o Executivo, mas não redefine o que o Estado é capaz de fazer, nem
quem tem poder para vetar reformas estruturais. A democracia funciona, mas
dentro de limites previamente estabelecidos pela elite permanente.
Síntese: No Brasil, a eleição muda o
governo, mas é a estrutura de poder que define o que o governo pode mudar.
CAPÍTULO
2 – A ROTATIVIDADE POLÍTICA EM PERSPECTIVA INTERNACIONAL
A
análise realizada no capítulo anterior demonstrou que, no caso brasileiro, a
alternância eleitoral não produziu redistribuição estrutural de poder. Este
capítulo amplia o escopo investigativo por meio de comparação internacional, a
fim de verificar se o fenômeno observado no Brasil constitui uma anomalia ou se
corresponde a um padrão recorrente em democracias contemporâneas que apresentam
rotatividade eleitoral combinada com continuidade das elites decisórias.
2.1.
CRITÉRIO DE COMPARAÇÃO E JUSTIFICATIVA METODOLÓGICA
A comparação internacional segue um
recorte analítico baseado em quatro condições empíricas necessárias para o
objeto deste estudo: (a) existência de sistema eleitoral competitivo; (b)
ocorrência de alternância partidária no comando do Executivo; (c) preservação
estrutural do poder econômico e institucional independentemente do grupo
vencedor das eleições; e (d) estabilidade das regras centrais do Estado mesmo
sob governos ideologicamente distintos. Esses critérios permitem avaliar se a
permanência de uma elite dominante em meio à rotatividade eleitoral é fenômeno
isolado ou recorrente.
Foram selecionados quatro países
que atendem integralmente às condições acima — Estados Unidos, México, Chile e
África do Sul. A escolha não se baseia em similaridades culturais ou
geográficas, mas em sua utilidade comparativa para testar a hipótese da alternância
limitada. Cada caso representa um modelo distinto de democracia com elite
estável:
- Estados
Unidos:
alternância partidária bipartidária com continuidade do poder
econômico-financeiro.
- México: transição do partido
hegemônico (PRI) para multipolaridade eleitoral sem ruptura da elite
econômica.
- Chile: alternância ideológica
pós-ditadura com manutenção do arcabouço econômico herdado do período
militar.
- África
do Sul:
mudança política formal após 1994 com preservação da estrutura de
acumulação ligada à elite empresarial pré-transição.
Esses quatro exemplos permitem
observar variações institucionais — presidencialismo x parlamentarismo,
bipartidarismo x multipartidarismo, transição pactuada x ruptura parcial — sem
alterar o elemento central da análise: a permanência do poder estrutural em
contextos eleitorais que aparentam pluralismo.
A metodologia, portanto, não busca
comparação exaustiva entre regimes, mas verificação de um padrão: eleições
mudam governos, mas não necessariamente transformam quem controla os recursos
coercitivos, financeiros, normativos e simbólicos do Estado. A partir desse
recorte, inicia-se a análise com o caso dos Estados Unidos, frequentemente
tomado como modelo de democracia consolidada.
2.2.
ESTADOS UNIDOS: BIPARTIDARISMO E ESTABILIDADE DO PODER ECONÔMICO
Os Estados Unidos constituem um dos
casos mais evidentes de sistema democrático no qual a alternância eleitoral não
afeta a estrutura de poder econômico e institucional. Embora o país apresente
eleições regulares e competitivas desde o século XIX, com rotatividade entre
Partido Democrata e Partido Republicano, o núcleo decisório do Estado permanece
sob controle de uma elite econômica, financeira e militar altamente estável.
Desde pelo menos a década de 1980,
políticas centrais — como a desregulação financeira, a política monetária
orientada por bancos centrais autônomos, a baixa tributação sobre grandes
fortunas e a manutenção do dólar como ativo global — permaneceram praticamente
inalteradas, independentemente da alternância entre governos rotulados como
liberais ou conservadores. Mudanças discursivas e partidárias não se
converteram em ruptura institucional.
Além disso, membros da elite
governamental — especialmente nos setores de defesa, finanças, diplomacia e
regulação econômica — transitam entre administrações de partidos distintos sem
perda de influência, fenômeno conhecido como “porta giratória” entre Estado,
corporações e think tanks. Esse padrão confirma que o acesso ao núcleo de poder
depende menos da filiação partidária e mais da inserção em redes institucionais
permanentes.
Outro indicador da continuidade
estrutural é a permanência das grandes corporações e conglomerados financeiros
como financiadores centrais do processo eleitoral. Embora o sistema seja
formalmente competitivo, o custo de campanha e a mediação financeira restringem
a disputa a atores capazes de operar dentro dos limites impostos pela elite
econômica, reproduzindo o modelo de competição controlada.
Assim, o caso norte-americano
evidencia que a alternância eleitoral pode funcionar como mecanismo de
legitimação democrática, enquanto a elite estrutural — composta por setores
militares, financeiros, midiáticos e burocráticos — permanece inalterada. A rotatividade
partidária opera como renovação simbólica, não como redistribuição de poder.
Esse padrão será comparado, nas seções seguintes, a modelos de transição
pós-hegemônica (México), pós-ditatorial (Chile) e pós-segregacionista (África
do Sul), a fim de aprofundar o argumento geral deste estudo.
2.3.
MÉXICO: DO PARTIDO HEGEMÔNICO AO PLURIPARTIDARISMO CONTROLADO
O México constitui um exemplo
relevante de transição formal da hegemonia partidária para a competição
eleitoral, sem que isso tenha resultado em redistribuição estrutural de poder.
Durante grande parte do século XX, o Partido Revolucionário Institucional (PRI)
controlou o Estado por meio de um regime híbrido, combinando eleições
periódicas, monopólio político e pactos entre elites regionais, empresariais e
militares. A derrota do PRI nas eleições presidenciais de 2000 marcou o fim da
hegemonia eleitoral, mas não significou ruptura institucional profunda.
A mudança partidária no Executivo
federal não alterou a configuração central do poder econômico, baseada na
predominância de grandes conglomerados empresariais e setores oligopolizados
com forte dependência de concessões públicas. O controle de recursos estratégicos
— como petróleo, mineração, infraestrutura e comunicação — permaneceu
concentrado em grupos que haviam se beneficiado diretamente do arranjo político
do período anterior. Assim, a substituição eleitoral funcionou como renovação
de elites governamentais, e não como redistribuição substantiva de poder.
Além disso, instituições
responsáveis por coerção, regulação econômica e controle territorial
mantiveram alto grau de autonomia em relação à alternância partidária. Tanto o
Judiciário quanto as Forças Armadas preservaram capacidade de veto, e estados federados
continuaram a operar sob redes de poder regional consolidadas, reproduzindo
dinâmicas oligárquicas locais. O pluripartidarismo não rompeu o padrão de
captura institucional, mas apenas expandiu o número de atores capazes de
negociar com a elite já estabelecida.
O caso mexicano evidencia que a
superação eleitoral de um partido dominante não implica transição para um
sistema pluralista substantivo. A estrutura política foi reorganizada, mas não
desmontada. A alternância de governo ampliou a forma democrática do regime, sem
alterar a lógica fundamental de distribuição do poder. Tal como no Brasil, a
rotatividade eleitoral operou como mecanismo de legitimação pública,
preservando o bloco institucional que controla o Estado e os recursos
estratégicos da economia.
2.4.
CHILE: ALTERNÂNCIA IDEOLÓGICA SOB CONTINUIDADE ECONÔMICA
O Chile é frequentemente
apresentado como exemplo de estabilidade institucional associada à alternância
democrática. Após o fim da ditadura militar em 1990, governos de orientação
social-democrata, liberal-conservadora e centrista se sucederam no poder, sugerindo
aparente pluralismo político. No entanto, a continuidade do modelo econômico
instituído durante o regime de Pinochet evidencia que a alternância ideológica
não se traduziu em ruptura estrutural.
Os pilares institucionais do modelo
chileno — sistema previdenciário privatizado, políticas de metas de inflação
com autonomia do Banco Central, abertura comercial radical, mercado educacional
baseado em endividamento familiar e baixa tributação sobre o capital — foram
mantidos tanto por governos de centro-esquerda (Concertación) quanto por
governos de centro-direita. As mudanças promovidas ocorreram em dimensões
compensatórias ou distributivas marginais, sem reverter o núcleo normativo que
organiza a economia e restringe a ação estatal.
A preservação desse modelo decorre
da combinação de três fatores institucionais: (a) Constituição de 1980, que
manteve dispositivos de proteção ao legado econômico da ditadura; (b) forte
concentração midiática, atuando como filtro de legitimidade pública; e (c)
mercado financeiro privatizado que condiciona políticas sociais ao
endividamento das famílias. A rotatividade eleitoral operou dentro desses
limites, e não contra eles.
Somente a partir das mobilizações
populares massivas de 2019 — voltadas contra o custo social do sistema —
tornou-se explícita a dissociação entre democracia procedimental e estrutura de
poder econômico. A crise revelou que o suposto consenso institucional era
resultado de um bloqueio político incapaz de ser revertido por via eleitoral.
Ainda que um processo constituinte tenha sido iniciado, o fato de a mudança ter
ocorrido fora do ciclo eleitoral reforça o argumento deste trabalho: a
alternância de governo só produz transformação quando acompanhada de ruptura
institucional.
Assim como nos Estados Unidos e no
México, o caso chileno demonstra que democracia eleitoral pode coexistir com
estabilidade estrutural da elite econômica. A polarização simbólica entre
coalizões partidárias não implicou redistribuição de poder, mas apenas disputa
administrativa dentro dos limites estabelecidos pelo modelo institucional
herdado.
2.5.
ÁFRICA DO SUL: MUDANÇA POLÍTICA SEM REDISTRIBUIÇÃO ESTRUTURAL
A África do Sul constitui um caso
emblemático de transição política profunda sem redistribuição estrutural de
poder econômico. O fim do regime de segregação racial em 1994 representou uma
transformação substantiva no plano jurídico e simbólico, com incorporação de
populações historicamente excluídas ao sistema político formal. Contudo, a
transição foi pactuada de modo a preservar os interesses centrais da elite
empresarial, majoritariamente vinculada ao período do apartheid.
O novo regime democrático garantiu
direitos civis, eleitorais e representativos, mas não alterou
significativamente a estrutura de propriedade dos meios de produção, do sistema
financeiro e do controle de recursos naturais estratégicos, como mineração e energia.
A elite econômica consolidada durante a ordem anterior manteve posição
dominante, enquanto a nova elite política assumiu o comando do Estado sem
capacidade de promover redistribuição estrutural de riqueza.
A preservação desse arranjo deriva
de três fatores principais: (a) o pacto constitucional que assegurou
estabilidade jurídica aos conglomerados empresariais; (b) a dependência fiscal
e tecnológica do Estado em relação às corporações já instaladas; e (c) a
ausência de coalizão econômica alternativa capaz de sustentar reformas de
redistribuição de ativos. Assim, a mudança eleitoral e racial da elite
governamental não significou transformação institucional equivalente à
observada em processos revolucionários ou rupturas estatais.
A crescente insatisfação social com
os limites da transição — expressa em protestos, aumento da desigualdade e
desgaste do Congresso Nacional Africano (ANC) — revela as tensões entre
inclusão política e manutenção do modelo econômico extrativo. Tal como nos
casos anteriores, a alternância eleitoral não produziu deslocamento substantivo
da elite que controla os recursos estratégicos, comprovando que a
democratização formal não equivale à democratização material do poder.
2.6.
SÍNTESE COMPARATIVA: O PADRÃO DE “DEMOCRACIA COM ELITE FIXA”
Os quatro casos analisados —
Estados Unidos, México, Chile e África do Sul — apresentam trajetórias
históricas distintas, sistemas partidários diferentes e níveis variados de
desenvolvimento econômico. Contudo, convergem em um ponto essencial para esta pesquisa:
a alternância eleitoral não implicou redistribuição estrutural do poder. Em
todos os casos:
- A
elite econômica manteve controle sobre os setores estratégicos da
economia.
- As
instituições centrais do Estado permaneceram estáveis, independentemente
do grupo eleito.
- A
política macroeconômica de longo prazo não foi substantivamente alterada
pela alternância partidária.
- O
acesso ao núcleo decisório permaneceu restrito a grupos institucionalmente
protegidos do ciclo eleitoral.
- A
disputa entre partidos operou como mecanismo de legitimação, não como
instrumento de ruptura.
Esse padrão pode ser descrito como
“democracia com elite fixa”: há competição eleitoral e rotatividade de
governos, mas os limites institucionais que definem o poder não se deslocam.
Eleições mudam administrações; não mudam estruturas. A circulação de atores
políticos, a polarização simbólica e a alternância de discursos não afetam o
funcionamento de instituições que concentram recursos coercitivos, econômicos e
midiáticos — o que confirma a tese de que a democracia procedimental pode
coexistir com sistemas de poder altamente estáveis.
A comparação internacional reforça,
portanto, a interpretação proposta no capítulo anterior: o caso brasileiro não
constitui exceção, mas expressão de um modelo recorrente em democracias onde a
elite dominante controla não apenas a economia, mas também as fronteiras
institucionais da mudança. A rotatividade eleitoral funciona como válvula de
estabilização, e não como mecanismo de redistribuição.
CAPÍTULO
3 – MECANISMOS DE RUPTURA INSTITUCIONAL E TRANSIÇÃO DE SISTEMAS EXTRATIVOS
3.1.
A ESTABILIDADE DOS SISTEMAS EXTRATIVOS E O PROBLEMA DO BLOQUEIO INSTITUCIONAL
Sistemas extrativos caracterizam-se
pela concentração duradoura do poder econômico e político em grupos restritos,
que controlam instituições estratégicas com o objetivo de preservar privilégios
e limitar a competição. O funcionamento desses sistemas não depende apenas da
ausência de pressões sociais, mas da existência de mecanismos institucionais
que impedem a transformação estrutural mesmo quando há mobilização política,
alternância eleitoral ou crise econômica de curto prazo.
Esse fenômeno, denominado “bloqueio
institucional”, consiste na capacidade das elites de impedir que decisões
reformistas alcancem implementação efetiva. O bloqueio pode ocorrer por meio
de: controle dos recursos coercitivos (Forças Armadas e aparato repressivo),
captura do Judiciário, financiamento seletivo da classe política, dependência
econômica da burocracia estatal, domínio dos meios de comunicação ou combinação
de todos esses elementos.
Assim, a estabilidade de sistemas
extrativos não é produto de imobilismo social, mas de arquitetura institucional
desenhada para evitar rupturas. Mesmo governos eleitos com mandato popular
encontram margens de ação reduzidas, pois operam dentro de um arranjo em que os
principais vetos não estão submetidos ao ciclo eleitoral. Por essa razão,
mudanças governamentais não equivalem a mudanças de poder.
3.2.
VIAS HISTÓRICAS DE RUPTURA INSTITUCIONAL
A análise comparada mostra que
sistemas extrativos só foram substituídos quando ocorreu algum tipo de ruptura
estrutural — e não por meio de alternância eleitoral convencional. Três formas
predominantes de ruptura podem ser identificadas:
3.2.1.
RUPTURA VIOLENTA (REVOLUÇÃO OU GUERRA CIVIL)
Esse tipo de transição ocorre
quando grupos excluídos adquirem capacidade de coerção suficiente para destruir
a estrutura institucional vigente. A Revolução Francesa (1789), a Revolução
Russa (1917) e a Guerra Civil norte-americana (1861–1865) exemplificam esse
modelo: a elite anterior não foi substituída gradualmente, mas eliminada como
grupo político dominante. Embora o resultado institucional varie, o elemento
comum é o colapso forçado do núcleo do poder.
3.2.2.
COLAPSO ESTATAL OU ECONÔMICO
Ocorre quando o sistema extrativo
deixa de ser capaz de se reproduzir materialmente. Nesse cenário, a elite é
forçada a negociar reformas sob risco de perda total de poder. A dissolução da
União Soviética (1991) e a restauração Meiji no Japão (1868) ilustram casos em
que o esgotamento econômico ou ameaça externa deslegitimaram o arranjo
anterior, abrindo espaço para novo regime institucional.
3.2.3.
REFORMA PACTUADA COM REDISTRIBUIÇÃO DE PODER
A ruptura pode ocorrer sem
destruição violenta quando parte da própria elite conclui que manter o sistema
extrativo reduz suas perspectivas futuras de acumulação. O caso da Coreia do
Sul nos anos 1960 e o de Botsuana no final do século XX mostram transições em
que elites dominantes aceitaram alterar instituições para ampliar bases de
desenvolvimento, preservando sua influência, mas mudando o arranjo de poder.
Apesar de sua diversidade formal,
esses três modelos têm um ponto em comum: em nenhum deles a transição
institucional resultou exclusivamente de eleições. A redistribuição real de
poder ocorreu quando a elite perdeu capacidade de veto ou quando a sobrevivência
do sistema se tornou inviável.
3.3.
CONDIÇÕES NECESSÁRIAS PARA SUBSTITUIÇÃO DA ELITE DOMINANTE
A literatura institucional indica
que rupturas bem-sucedidas de sistemas extrativos só ocorrem quando convergem
quatro condições estruturais:
- Perda
da capacidade de veto da elite dominante — militar, jurídica, fiscal
ou territorial. Sem a erosão dessa capacidade, qualquer tentativa de
reforma é bloqueada antes de produzir efeitos substantivos.
- Existência
de coalizão alternativa organizada, capaz de ocupar o espaço institucional
deixado pelo colapso parcial ou total da elite anterior. Mudanças sem
substituição organizacional tendem a gerar vazio de poder ou retorno ao
status quo.
- Elevação
do custo de manutenção do sistema a ponto de superar o custo da
transição. Elites só aceitam pactos reformistas quando a continuidade
ameaça sua própria sobrevivência econômica ou política.
- Choques
internos ou externos que tornem o equilíbrio institucional instável
(crises financeiras, rupturas tecnológicas, derrota militar, revoltas
massivas persistentes).
Essas condições explicam por que
regimes extrativos não se desagregam gradualmente. Sem ruptura da estrutura de
dominação — por força, colapso ou pacto —, reformas pontuais são absorvidas e o
sistema se reorganiza para manter sua forma essencial.
3.4.
O PAPEL DAS COALIZÕES SOCIAIS, DOS CHOQUES EXTERNOS E DAS CRISES INTERNAS
Nenhuma ruptura institucional
deriva de um único ator. A análise comparativa mostra que três grupos
desempenham papel estratégico na transição:
- Setores
sociais excluídos, que pressionam por redistribuição de poder, mas
raramente possuem capacidade de ruptura isolada.
- Frações
dissidentes da elite, que deixam de se beneficiar do sistema vigente e
passam a apoiar a transição — a chamada “divisão da classe dominante”.
- Agentes
externos, como potências estrangeiras, mercados internacionais, crises
sistêmicas ou transformações tecnológicas, que alteram o equilíbrio de
poder interno.
Rupturas fracassam quando apenas o
primeiro grupo está mobilizado; resultam em reformas conservadoras quando
apenas o segundo se movimenta; e tornam-se realmente estruturais quando há
convergência entre pressão social, dissidência intrassistêmica e choque externo
que desestabiliza o antigo arranjo.
Assim, não há transição
institucional duradoura sem articulação entre mobilização popular e
reconfiguração interna da elite. Tentativas exclusivamente eleitorais falham
porque não alteram o polo de veto — e tentativas exclusivamente revolucionárias
fracassam quando não conseguem construir novo bloco institucional.
3.5.
POR QUE A MAIORIA DAS TENTATIVAS DE RUPTURA FRACASSA
O fracasso de processos de ruptura
institucional decorre, em grande parte, da capacidade de adaptação e
recomposição das elites. Três mecanismos recorrentes explicam essa dinâmica:
- Cooptação –
lideranças reformistas são incorporadas ao sistema mediante concessões
seletivas, preservando o núcleo do poder. A mudança ocorre em termos
pessoais, não estruturais.
- Reorganização
da elite – ocorre substituição de agentes, mas não de instituições.
Grupos previamente excluídos passam a participar do sistema, mas seguindo
as mesmas regras de dominação anteriores.
- Substituição
simbólica – há mudança discursiva, identitária ou legal, mas não
material. Reformas são anunciadas, mas revertidas ou neutralizadas antes
de produzirem redistribuição efetiva.
Vários processos de independência
nacional na África ilustram esse padrão: elites coloniais foram substituídas
por elites nacionais, mas a estrutura econômica continuou operando sob lógica
extrativa, preservando desigualdade e dependência.
O ponto central é que trocar
pessoas não equivale a trocar instituições. Ruptura real implica deslocamento
do poder, e não apenas redistribuição de cargos.
3.6.
APLICAÇÃO DO MODELO AO CASO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO
Aplicando o modelo analítico ao
Brasil, observa-se que nenhuma das condições necessárias para ruptura
institucional esteve presente de forma estruturada desde a Constituição de
1988. Não houve destruição coercitiva da elite dominante (ruptura violenta), não
ocorreu colapso estatal ou econômico irreversível que inviabilizasse o arranjo
existente, tampouco houve pacto redistributivo que alterasse a estrutura de
poder.
A transição pós-ditadura foi
conduzida por negociação entre setores civis, empresariais, militares e
burocráticos, preservando a elite previamente dominante em novas bases
constitucionais. A redemocratização reorganizou a forma do regime, mas não
redistribuiu o controle dos recursos estratégicos do Estado. Desde então,
crises políticas, escândalos de corrupção, impeachments, despolarizações e
repolarizações eleitorais não resultaram em redistribuição estrutural do poder,
pois todas foram absorvidas pelas instituições que operam como mecanismo de
bloqueio.
Tampouco emergiu coalizão
alternativa capaz de unificar frações sociais, econômicas e estatais em torno
de novo modelo institucional. A polarização eleitoral canalizou insatisfação
para o campo partidário, sem produzir deslocamento do núcleo decisório — o que
reforça a tese de que, no Brasil, a alternância de governo funciona
como estabilização do sistema, e não como ameaça ao poder da elite permanente.
Assim, o caso brasileiro confirma o
padrão observado internacionalmente: a democracia eleitoral, isoladamente, não
possui capacidade de reconfigurar estruturas de poder quando o design
institucional permite veto extrapartidário de reformas estruturais.
3.7.
SÍNTESE CONCLUSIVA: RUPTURA INSTITUCIONAL ≠ MUDANÇA ELEITORAL
A análise comparativa e histórica
permite afirmar que não existe registro de transformação estrutural de
sistemas extrativos decorrente apenas de alternância eleitoral. A eleição
modifica o governo, mas não o poder, a menos que esteja associada a ruptura
institucional — pactuada, forçada ou colapsante. Em sistemas nos quais elites
controlam recursos coercitivos, econômicos, jurídicos e midiáticos, a
democracia procedimental opera como mecanismo de legitimação, não como
redistribuição do poder.
Desse modo, o conceito de
“alternância democrática” só é substantivo quando envolve mudança no acesso aos
vetos institucionais e às fontes de acumulação estrutural. Se tais elementos
permanecem intocados, a alternância eletiva equivale a manutenção da ordem sob
aparência de disputa plural.
O contraste entre a lógica
eleitoral e a lógica institucional demonstra que mudar o governante não
significa mudar o regime de poder. Sem ruptura — seja revolucionária,
colapsante ou pactuada —, o sistema reproduz-se, adaptando suas formas e
preservando seus fundamentos.
3.8.
CRÍTICAS POSSÍVEIS À TESE E RESPOSTA TEÓRICA
A tese da alternância limitada pode
ser alvo de diferentes objeções. As principais e suas respostas são sintetizados
abaixo:
3.8.1.
Crítica liberal-democrática – “Se há eleições livres, há distribuição de
poder.”
→ Resposta: eleições distribuem cargos, não necessariamente poder. O poder real
depende da capacidade de controlar vetos institucionais, não do resultado
eleitoral.
3.8.2.
Crítica marxista – “A análise privilegia elites e ignora luta de classes.”
→ Resposta: a abordagem institucional não nega o conflito de classes, mas o
operacionaliza na forma de controle concreto de instituições. A elite aqui não
é apenas econômica, mas jurídico-estatal e simbólica.
3.8.3.
Crítica progressista – “Houve tentativas de ruptura, mas foram derrotadas.”
→ Resposta: o bloqueio dessas tentativas confirma justamente a tese de que o
sistema é impermeável à transformação por via eleitoral.
3.8.4.
Crítica tecnocrática – “A permanência de políticas é racionalidade técnica, não
domínio elitista.”
→ Resposta: a noção de neutralidade técnica mascara escolhas políticas que
beneficiam grupos específicos e impedem alternativas institucionais.
3.8.5.
Crítica otimista – “A elite não é fixa, pois há renovação pessoal.”
→ Resposta: trocar indivíduos não é redistribuir instituições. A renovação de
nomes não altera o controle estrutural do poder quando as regras permanecem
constantes.
4
AGENDA DE PESQUISA
Embora este ensaio tenha formulado
uma interpretação estrutural do sistema político brasileiro, o tema permanece
aberto a investigações que aprofundem e testem empiricamente suas implicações.
Entre as linhas de pesquisa mais promissoras, destacam-se:
a)
Estudos empíricos de redes de elite – mapeamento sistemático da
circulação de indivíduos entre governo, setor financeiro, carreiras jurídicas,
corporações estatais e mídia, com o objetivo de mensurar a continuidade dos
grupos que ocupam posições estratégicas.
b)
Análise federativa da permanência do poder – investigação sobre como
elites regionais e municipais reproduzem o modelo de elite permanente em escala
subnacional, considerando o peso do federalismo brasileiro na distribuição real
do poder político.
c)
Comparação entre elites setoriais – estudo da interação entre elite
econômica, burocrática, jurídica e midiática, avaliando se a estabilidade
institucional deriva de cooperação, sobreposição ou competição interna entre
esses grupos.
d)
Exame de tentativas de ruptura frustradas – análise de reformas
bloqueadas ou revertidas, com foco nos mecanismos institucionais de veto e na
identificação de possíveis pontos de inflexão do sistema.
O avanço dessas agendas exige
integração entre teoria institucional, análise de redes, sociologia do poder,
ciência política comparada e história econômica. O objetivo deixa de ser apenas
confirmar a permanência da elite, e passa a identificar quando, como e sob
quais condições ela pode ser contestada ou substituída.
CONCLUSÃO
A investigação demonstrou que a
alternância eleitoral brasileira, consolidada desde 1988, não produziu
alternância estrutural de poder. A estrutura institucional do Estado permaneceu
sob controle de grupos dotados de continuidade política, econômica, jurídica e
midiática, convertendo a rotatividade eleitoral em instrumento de legitimação —
e não de redistribuição de poder.
Essa estabilidade institucional não
decorre de consenso entre governos, mas da existência de barreiras que limitam
a ação transformadora de qualquer administração: financiamento político
concentrado, dependência econômica do capital privado, poder territorial das
oligarquias, autonomia de carreiras estatais e controle dos meios de
comunicação. A democracia brasileira funciona, portanto, dentro de limites que
neutralizam o conflito redistributivo.
A comparação internacional
confirmou que esse padrão não é exclusivo do Brasil: em diversas democracias, o
voto altera governos, mas não o núcleo de decisão do Estado. A tese defendida
ganha consistência ao ser identificada como parte de um modelo mais amplo: democracias
com elite fixa e rotatividade controlada.
O exame das vias históricas de
transformação institucional mostrou que sistemas extrativos só se alteram por
ruptura estrutural — e não por alternância eleitoral. Como o Brasil não passou
por ruptura desde 1988, a ausência de mudança estrutural não representa falha
ocasional, mas consequência lógica do desenho institucional vigente.
A síntese final pode ser expressa
de forma inequívoca: alternar governos não é o mesmo que alternar poder.
Enquanto a estrutura institucional permanecer blindada, a competição eleitoral
continuará produzindo efeitos marginais, preservando a elite permanente como
núcleo decisório do Estado. Assim, qualquer projeto de democratização
substantiva depende menos da disputa partidária e mais da capacidade de
redistribuição institucional do poder — condição ainda ausente no cenário
político brasileiro.
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